quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ataques e contra-ataques do racismo na terra de Pelé*



por Felipe Carrilho

O futebol, verdadeira instituição nacional, pode ser visto como um indicador privilegiado da realidade social do Brasil quando abordado de modo mais profundo e analítico. Na semana da consciência negra, é oportuno tratar das contribuições do negro para a construção de nosso país, a partir de uma lente de observação futebolística.

No momento em que, numa reação editorial e midiática às políticas de afirmação implantadas e bem sucedidas, ganha força o argumento segundo o qual a inconsistência do conceito de raça, do ponto de vista biológico, inviabiliza a constatação do racismo na prática social brasileira, é necessário tratar do negro, indissociável da história de nosso país e de sua principal prática esportiva.

No início da trajetória do futebol em nossas terras, o negro tornou-se um elemento central para o debate a respeito dos rumos da nação. No final do século 19, com a abolição do regime escravista, optou-se por uma política de branqueamento de nosso povo, em que o incentivo à imigração europeia para abastecer as lavouras de café e a produção industrial representou o seu carro-chefe. Por meio da aposta em certo modelo de miscigenação, tal ideologia procurava diluir o elemento negro, sufocando a diversidade racial ao forjar uma sociedade pretensamente branca e homogênea.

Negritude disfarçada
O futebol, índice preciso do estado geral do país, explicitou as consequências da disseminação desse pensamento ao seu modo. Artur Friedenreich, por exemplo, filho de um comerciante alemão e de uma lavadeira negra, considerado o primeiro craque de nosso futebol, precisava disfarçar a sua negritude, esticando os cabelos e empapando-os com brilhantina para sentir-se socialmente incluído, à semelhança do que ocorreu no célebre caso do jogador do Fluminense, Carlos Alberto, que branqueou a sua pele com pó de arroz para fugir ao preconceito, em jogo realizado, ironicamente, no dia 13de maio (data que marca o fim da escravidão) de 1914.

No clássico livro “O negro no futebol brasileiro”, de 1947, Mário Filho narra a trajetória dos descendentes de escravos em sua luta por inclusão no futebol, pautado pelos valores elitistas do regime amador de seus primórdios. Segundo o autor, na década de 1920, por meio de clubes de formação popular, como o Bangu, o Vasco da Gama e o São Cristóvão, os negros pressionaram os dirigentes pela adoção do regime profissional, garantindo espaço de destaque na Copa do Mundo de 1938.

A década de 1930, além de marcar a adoção do regime profissional no esporte, foi palco de importantes elaborações teóricas a respeito da identidade do país. “Casa grande e senzala” (1933) e “Sobrados e mucambos” (1936), de Gilberto Freyre, são obras referenciais no que diz respeito ao elogio da mestiçagem enquanto trunfo da cultura nacional. E Freyre, em sua veia interpretativa, arrisca-se também no terreno do futebol. Para o consagrado antropólogo, a conversão do “jogo britanicamente apolíneo” em “dança dionisíaca”, por influência dos movimentos corporais do samba e da capoeira, seria resultado do processo de mestiçagem verificado no Brasil.

"Bodes expiatórios"
O samba e a capoeira, manifestações de matriz claramente africana, com raízes profundas nas religiões tradicionais dos negros, aparecem, então, “sublimados” na interpretação de Freyre, traduzidos como produto do que se chamaria de democracia racial, assim como ocorre, por extensão, com o modo característico de jogar futebol do brasileiro. A contribuição do negro é “promovida”, assim, à categoria de “progresso da mestiçagem”. Em última análise, é possível dizer, com algum exagero provocativo, que temos, desse modo, a realização do ideal de branqueamento e de homogeneização de nossa sociedade no mundo das especulações interpretativas sobre o Brasil.

Edições posteriores do livro de Mário Filho acompanham também a saga do negro no futebol até a realização da Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. Como não poderia deixar de ser, um dos momentos mais marcantes da narrativa de Filho refere-se à “tragédia”, à derrota da seleção brasileira para o Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã. Diz o autor sobre a responsabilização ocorrida após o fracasso:

“Assim, três pretos foram escolhidos como bodes expiatórios: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os outros mulatos e pretos ficaram de fora: Zizinho, Bauer e Jair da Rosa Pinto. Era o que dava, segundo os racistas que apareciam aos montes, botar mais mulatos e pretos do que brancos no escrete brasileiro”.

Percebe-se, por tal passagem, a persistência do preconceito racial no país após o advento das ideias do “futebol mestiço” e da “civilização mestiça”. Na ocasião em que a nacionalidade brasileira sofria um duro golpe dentro das quatro linhas, assim como costuma ocorrer cotidianamente nos momentos de acirramento social, como na busca por colocação no mercado de trabalho, por exemplo, fomos divididos em dois grupos: os brancos e os não brancos, os culpados, os negros.

Racismo escamoteado
Nem o coroamento da geração de Pelé e Garrincha, com o bicampeonato mundial, nem o ápice da demonstração do futebol-arte, transmitido ao vivo pela televisão, durante a Copa de 1970, foram capazes de extinguir o racismo à moda brasileira, aquele que está sempre escamoteado, com vergonha de si mesmo, mas que não se abstém de atuar. Depois de Barbosa, o primeiro goleiro negro a defender a seleção brasileira, como titular, em Copas do Mundo foi Dida, em 2006, após 56 anos de um sombrio intervalo. Nenhuma outra posição, do lateral ao ponta-esquerda, ficou tanto tempo sem ser ocupada por um negro no time nacional. E, hoje, as ocorrências de racismo no futebol continuam a ser registradas dentro e fora do país.

Na data em que se celebra a consciência negra no Brasil, é preciso retomar tal contribuição futebolística, dando ao negro o que é do negro. A ancestral concepção festiva da vida permitiu, aos descendentes de escravos, introduzirem um modo peculiar de tratar a bola e de ser brasileiro, um jeito de jogar e de viver voltado ao prazer e à beleza, que está na base do que se pode chamar de identidade nacional brasileira.

*Texto publicado na edição de 19 a 25 de novembro do jornal Brasil de Fato.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma velha rivalidade

por Felipe Carrilho

Meu avô é um descendente de espanhóis que se converteu ao corinthianismo quando, na flor da idade, chegou à metrópole, vindo de Bariri, no interior paulista, sua cidade natal.

O velho Fernando Carrilho não cansa de contar a história do dia em que, trabalhando como operário numa fábrica do Bom Retiro, foi convidado por um "camarada" para assistir, pela primeira vez, o Corinthians jogar no Parque São Jorge.

A paixão alvinegra imediatamente tomou conta do então jovem trabalhador, que foi colecionando episódios ao longo de suas décadas de vida corinthiana.

O escasso leitor pode estranhar o tom pessoal deste texto, tão incomum ao perfil de nosso famigerado blogue. Mas me lembrei de meu avô por causa do jogo que se aproxima, contra o Palmeiras, que representa a derradeira oportunidade de o Corinthians, de alguma forma, reabilitar a campanha mediocre que vem fazendo neste fraco Campeonato Brasileiro.

Há quase sessenta anos morando no bairro da Pompeia, reduto de italianos e descendentes, seu Fernando tem predileção por contar os "causos" que envolvem a rivalidade entre o Corinthians e o "Palestra". Ele chegou a assistir os embates entre os times das arquibancadas da Fazendinha: "Naquele tempo, não tinha tanta violência no jogo, mas se um ‘parmerense’ viesse com deboche, sentávamos o braço", costuma contar rindo.

As diferenças entre os clubes, para além das quatro linhas, também aparecem nos relatos de suas memórias: "Eles não gostavam de preto não. Preto não podia nem passar na porta do ‘Parmera’. Se um menino assim que nem você quisesse jogar lá, não deixavam".

Do alto de seus 91 anos de idade, meu avô, apesar da saúde de ferro, já não acompanha as idas e vindas dos campeonatos com o mesmo frescor da juventude. Numa das recentes visitas que fiz a ele, perguntou:

– Quem está em primeiro lugar no campeonato?

– Palmeiras, vô.

– "FIAS DA PUTA!" – respondeu prontamente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Entrevista Vai Corinthians

Na segunda-feira (19/10), tive o prazer de participar do programa Apenas Corinthians, da rádio Vai Corinthians, apresentado pelos amigos e grandes corinthianos Ginaldo e Fábio, que segue abaixo. É só clicar no play.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Acorda, Corinthians!

por Felipe Carrilho

Corinthians e Fluminense fizeram, como não era difícil de prever, um jogo muito fraco, que resultou num melancólico placar de 1 a 1.

O Corinthians sofreu o primeiro gol numa cobrança de escanteio logo no início da partida, e o Fluminense, por alguns minutos, deu a impressão de que faria uma boa partida finalmente. Mas ainda no primeiro tempo o Corinthians empatou com Dentinho (que comemorou timidamente o gol) e passou a dominar o adversário. No segundo tempo, o Corinthians limitou-se a administrar o resultado, mostrando-se nitidamente satisfeito com o placar medíocre.

Depois da partida, como todos podem ler nos noticiários esportivos, Mano Menezes mostrou-se muito irritado e, pela primeira vez à frente do Corinthians, fez veementes críticas públicas aos jogadores, acusando-os de jogar de "barriga cheia", sem empenho, "pensando em 2010".

A atitude de Mano tem duas facetas. A primeira é a mais sincera, que constata, de fato, um relaxamento exagerado do elenco, após as conquistas do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil. Declarações de Ronaldo, depois da derrota por goleada para o Goiás, e a quase ausência de comemoração por parte de Dentinho no gol de ontem são indícios incontestáveis dessa realidade e justificaram, sem dúvida, a atitude do treinador.

A consistência da constatação de Mano, no entanto, não pode encobrir um outro lado mais grave dessa história e que foi habilmente disfarçado pelo discurso do técnico: O Corinthians não tem mais padrão de jogo!

Não gosto de evocar o episódio que foi classificado por muitos como "desmanche", com as vendas de Cristian, André Santos e Douglas para o futebol exterior. Só o faço agora para apontar o fato de que a diretoria do Corinthians não soube "repor as peças", para usar uma terminologia produtivista, tão apropriada para o futebol contemporâneo e que o Mano ainda não encontrou um esquema tático para o novo time.

Cristian era a alma de nosso meio campo, o mais corinthiano de nossos jogadores, com seu estilo técnico e aguerrido, e foi substituído por Marcelo Mattos, que nem no auge de sua carreira jogava a metade do futebol do meio-campista vendido.

André Santos saiu do Corinthians para atuar no futebol turco e hoje é o dono da camisa 6 da seleção brasileira que disputará a Copa no ano que vem. Para o seu lugar, temos o bom e sempre machucado Marcelo Oliveira, o improvisado e mal sucedido Marcinho, o limitado zagueiro Diego. Ontem jogou Balbuena, numa espécie de improviso do improviso.

Douglas, muito importante na campanha da Série B, foi marcado para sempre pelos "Ronaldomaníacos" depois de arriscar um chute ao invés de passar a bola ao galáctico atacante. Hoje, sua ausência é lamentada diante do começo nada animador dos badalados Edno e, principalmente DeFederico, que pode vir, é verdade, a ser um grande jogador...

Mas o problema é que episódios como a contratação midiática do argentino juvenil e os rumores intermináveis de uma possível vinda de Riquelme colocam o planejamento do Corinthians em jogo. Qual o caminho que estamos escolhendo para chegar à esperada Libertadores do centenário? Lamento dizer isso, mas a direção corintiana de hoje lembra a dos sombrios tempos da MSI, ao colocar o marketing acima do futebol, apostando em projetos megalomaníacos, pagos com o retalhamento do manto sagrado e com a extorsão do corinthiano, vitimado por uma lógica elitista aplicada na administração de nosso futebol.

O grande time que o Corinthians tinha até alguns meses atrás foi construído lentamente, levando mais de um ano para atingir o ápice de seu desempenho. Parece que isso foi esquecido... A contratação de Ronaldo coroou um projeto forjado num dia a dia de muita dedicação, entre erros e acertos, que culminou num estilo de jogo coletivo e libertário, como assinalamos depois da partida do primeiro turno do Brasileirão contra o próprio Fluminense.

O Corinthians precisa acordar, a nação corinthiana necessita ver o que realmente está acontecendo! É preciso ir além da mera cornetagem para que o Corinthians possa retomar o seu rumo a tempo e para que 2010 não seja uma tragédia anunciada.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Paradinha, o Brasil em jogo

por Felipe Carrilho



Todos leram ou assistiram nos noticiários esportivos de ontem (29/09) que o presidente da FIFA, Joseph Blatter, pretende proibir o artifício das paradinhas nas cobranças de pênalti. O mandatário suíço considera a jogada "uma maneira de roubar", que deveria ser punida com "cartão amarelo e, na insistência, o vermelho".
Para além das discussões rasas da grande mídia do futebol, em que os jornalistas, de um modo geral, não conseguem ultrapassar o âmbito de suas preferências pessoais, é preciso desvendar o substrato desse embate.
Em seu livro "Futebol ao sol e à sombra", o escritor uruguaio Eduardo Galeano assim definiu a importância de Friedenreich para o nosso futebol:
Este mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses: ele, ou o diabo que se metia pela planta de seu pé. Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto à fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer.
De uma sociedade brasileira marcada por gritantes desigualdades e tensões raciais e, portanto, caracterizada pela presença da chamada malandragem no jogo social, nasceu, assim, um futebol calcado no improviso e no movimento ilusório dos corpos brancos, negros e mulatos de nossos jogadores. O Brasil moldava o seu futebol, mas também por esse forjava a sua própria identidade. Segundo Roberto DaMatta, a capoeira, arte por excelência da ginga e ludíbrio corporal, seria a grande matriz de nosso jeito de jogar futebol.
Sob tal perspectiva, o ressurgimento da paradinha pode ser lido como uma nova (e hoje rara) demonstração radical da identidade do futebol brasileiro e, de alguma forma, do próprio país. Assim, o que a FIFA pretende fazer, ao proibir a jogada, soa, num nível mais profundo, como uma imposição cultural europeia, que vai ao encontro do ideal de massificação do futebol, pasteurizando o seu conteúdo e tornando-o mais chato.

sábado, 12 de setembro de 2009

P A R A B É N S




Neste mês tão significativo para o futebol mundial, mandamos um grande parabéns para o Felipão, o grande "capo" deste blog. Parabéns pela sua luta, por seus ideais e por sua fé no Corinthians, nos amigos e na vida. É bom ter um irmão como você (esse blog está ficando sensível demais).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Parabéns, Corinthians!